
Eram altas horas da noite, eu, deitado, semi imóvel na cama do hospital, respirava por aparelhos, via a chuva fina descer pelos grandes vidros da janela da sala em que eu estava, via também desolado ao meu lado, minha mãe e noiva, em prantos.
Ambas cansadas da vigília, deram-me um beijo, minha noiva disse ao meu ouvido algumas palavras que, infelizmente não pude distinguir, enfim, deixaram-me só, á meia luz que inundava meu antro, meus olhos lacrimejavam, não queria estar naquela situação, logo eu! Um rapaz tão vivido, tão radiante, me via a mercê de uma doença rara, que me atingira sem avisar, sem o mínimo de indulgência. Adormeci olhando para o aparelho- que nem sei o nome- o aparelho em que mostrava os batimentos do meu coração.
Porém, algo fascinante me ocorrera na manha seguinte, uma força, uma reação espetacular do meu corpo, eu estava novamente dono de meus movimentos, sentia o sangue fluir novamente por todo meu corpo, não podia acreditar em tal recuperação abrupta, nem mesmo o sol alaranjado e intenso que precipitava pelas fendas da persiana me incomodavam – só não entendia como era possível, pois uma chuva fina ainda se fazia presente, porém esse fato era irrelevante perante minha satisfação por eu ter recebido “uma segunda chance”-, minha alegria era tamanha que dava vontade de pular da cama e correr sem parar por horas.
Inclinei a cabeça e vi, do outro lado da vidraça que dava pro corredor, minha mãe e noiva, abraçadas, uma consolando a outra, estavam desoladas, queria logo lhes mostrar que eu estava bem, queria ver a cara delas quando me vissem no meu mais bem estado de espírito, gostaria de dizer tanto à elas, havia sido um filho muito ruim, uma vontade de pedir desculpas á minha mãe pairava em meu ser, queria dizer á minha noiva que sim! Que iríamos viajar por lugares que tanto sonhamos, Não podia mais aguentar a visão que vinha ate mim; minha noiva, com o queixo apoiado no ombro de minha mãe, olhava fixo, o nada, sua tristeza era profunda, sentei me na cama, era incrível!! Mexia as mãos, os pés, me sentia vivo outra vez, respirei fundo, senti meus pulmões se encherem de ar, era algo realmente fantástico! No entanto, ao olhar meus dedos notei que minha aliança já não estava lá, foi então que, ao virar minha cabeça para procurá-las na cama, minha alma despedaçou-se novamente, pois, tristemente vi amargurado que, atrás de mim meu corpo jazia pálido e sem vida.
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