
Se alguns de vocês meus caros leitores, já conheceram em suas vidas alguém excêntrico, daqueles que quando olham em nossos olhos fazem com que desviamos o olhar, daquelas pessoas que nos intrigam, que desperta em nossas almas um sentimento de admiração e ao mesmo tempo de ódio, entenderam muito bem o que o personagem principal dessa história causava-me, falo de Adan, um rapaz de vinte e poucos anos, fisionomia resoluta, de uma presença de espírito desconcertante, de uma inteligência e sagacidade fora do comum, e uma incrível calma, uma fascinante presença de espírito, onde nada o fazia se comover.
Éramos sempre em quatro amigos, todos de personalidades diferentes; Tom meio estressado, se irritava freqüentemente, Haword, simpático e cordial, e eu, bem, vocês irão ver no decorrer dos fatos, porem, falarei de Adan; desde muito novo ele causava espanto na nossa roda de amigos, possuía uma tranqüilidade fora do comum, fazia coisas que para o resto de nós eram totalmente inconcebíveis. Certo dia, ao encontrarmos um cavalo morto numa linha férrea, todo despedaçado e já fedendo a carniça, Adan, com um gesto mais simples possível, e como se nada estivesse fazendo, o removeu dos trilhos parte por parte, enquanto alguns de nós vomitávamos e o reprimíamos por fazer aquilo de mãos desnudas, Adam, em sua face nada expressava, arrastava cada parte do animal para fora dos trilhos, as tripas cheias de vermes, o crânio do animal esmagado, tudo era removido dos trilhos com a maior normalidade possível. Ao final desse ato, ele com as mãos em sangue olhou para nós e disse tranquilamente - vamos andando amigos - íamos á um lago nos banhar.
Adan era uma pessoa que tinha uma precisão cronológica de outro mundo, sabia ao certo quantos minutos, segundos, quantos passos era preciso para chegar a qualquer lugar, desde novo sempre fazia apostas conosco em relação a esse dom, e sempre perdíamos, até, uma época que nós já não apostávamos mais, assim, sempre que alguém novo chegava, ele não perdia tempo, e fazia uma aposta, as pessoas riam e o caçoavam, o achavam louco, no entanto, no final da aposta, era Adam que lhes desferia um sorriso entre aberto e sarcástico após ganha-lá.
Numa dessas apostas, ainda na infância, estávamos na casa de Haword, que ficava perto da linha férrea, então, Adam, sem mais sem menos disse:
Em quinhentos e oitenta passos eu atravesso a linha férrea e fico à apenas um passo da madeira que sustenta o trilho do lado de lá.
Tom disse desdenhando:
- pois vendo que você já deve ter contado os passos, acho fácil essa aposta para ti!
Todos nós concordamos com esse fato exposto por Tom. Então tranquilamente disse Adam:
- Escolha o ponto meu caro amigo, qualquer local, e eu te direi quantos passos darei, passos esses, sempre uniformes e corretos.
A esse desafio todos nós nos olhamos, achávamos absurdo aquilo, porém, vínhamos uma chance da ganhar um dinheiro e ainda caçoar de Adan, que alias, nunca perdera uma aposta, e isso o fazia superior a nós, seria gratificante vê-lo perder.
Aposta feita, concordamos que se ele ficasse no meio do caminho, ou, se ficasse a mais de um passo do outro lado da linha férrea, perderia. Ele, prontamente consentiu com nossas exigências, e ainda para nos causar espanto terrível disse:
- E prometo-lhes parar onde meus passos me levarem, até mesmo no meio dos trilhos e La ficarei até que o trem passe!
Ao ouvir isso, Haword disse assustado:
- Nem pra tanto Adam, sem exageros!
Eu meio que no impulso disse:
- Concordo!
Tom disse confiante:
- Pois bem, o local será aquele perto do desvio dos trilhos, bem ao lado da alavanca, então, Adan, quantos passos?
Adam cerrou os dentes, olhou fixo para baixo, e então, depois de um silencio profundo disse:
- Setecentos e noventa e um passos! Vamos!
- Isso vai dar em merda – disse Haword sempre preocupado.
Sem demoras começamos a nos deslocar, com o primeiro passo já contado desde o local que Adan estava quando fez a aposta, Tom, sempre minucioso a olhar os passos de Adan, tentava achar uma mínima diferença entre eles, porém, Adam era preciso, seus passos eram cautelosos e sempre iguais. Quando Adan já havia dado setecentos e cinqüenta passos, o trilho já nos era visíveis entre o caminho no meio da floresta, caminhou mais um pouco - exatamente vinte passos - Adan parou, olhou-nos e disse ironicamente:
Ainda há tempo de manterem seus dinheiro nos bolsos!
Ninguém disse nada, Haword olhava para os pés de Adan e para os trilhos à nossa frente, como se contando onde aqueles vinte e um passos restantes levariam Adan, então disse desesperado:
- Eu desisto Adan, isso é loucura, você irá parar bem no meio dos trilhos, eu desisto! Vamos embora amigos!
- Espere! – disse Tom - eu não desisto- eu também não- disse eu.
- Pois bem, ganharei menos agora, mas, vamos lá- disse Adan.
A cada passo que Adan dava, o desespero ia tomando conta da pobre alma de Haword, Tom, esfregava uma mâo na outra, já imaginando-se ganhador da aposta, eu, dividia os dois sentimentos, seria prazeroso vê-lo perder, no entanto, não nego que a cada passo ficado para trás meu coração batia cada vez mais rápido, era angustiante.
Enfim, Adan parou em frente à linha férrea, faltavam-lhe cinco passos, ninguém disse nada, ouvimos o apito do trem e logo em seguida ele vinha cruzando ao longe, Adan esperou que ele se aproximasse mais, parecia sentir prazer em ver o desesperado Haword lhe implorando para parar por ali, e eu sabia que ele podia ver no meu olhar o medo que eu sentia, o terror que me assolava, então, a poucos segundos de o trem passar por nós ele continuou caminhando, seu ultimo passo, para espanto nosso, o deixou assim como ele planejara, a um passo do outro lado da linha férrea, então, ele se virou, e antes que pudéssemos ver seu rosto, o trem passou apitando brutalmente, entre os espaços de um vagão e outro víamos Adan a sorrir triunfante, mas não era um sorriso puramente normal, mas sim um sorriso seco e sarcástico, seus cabelos se esvoaçavam com o vento provocado pelo trem.
Assim, em meio à apostas cada vez mais absurdas e atos extraordinários por parte de Adan, os anos foram-se passando. Já na idade adulta, todos por volta dos vinte e poucos anos, nossa presença era freqüente em bares e seus derivados, Adan fazia fortuna apostando em jogos, dos mais variados, mas no que mais ele era fascinante, era no baralho, parecia contar as cartas, por vezes se viu tendo que se despir para provar não estar roubando. Num desses jogos, um homem que conhecera a historia de Adan e a aposta da linha do trem disse:
- Dizem por ai que você há muito tempo fez uma aposta, relacionada com um trem e alguns passos.
Adan se limitou a fita-lo, deixando a entender que era vera a sua façanha. O homem entendendo isso o desafiou:
- Pois aposto mil libras que não terá a mesma sorte de antes - disse o homem que acabará de perder um bom dinheiro no baralho para Adan.
Adam não só aceitou o desafio, como era de seu costume, o fez ficar ainda mais desafiante:
- Não só repito isso, como direi a você à hora exata em que o trem passará à nossa frente, e, deitar-me vou na linha do trem, e quatro segundos antes do horário por mim informado em que o trem passará à nossa frente, eu me levantarei triunfante e pegarei meu dinheiro direto de suas mãos – completou - não saio de lá antes disso!
Aquilo realmente era um ato de loucura, - pensei - a vaidade de Adan lhe subira à cabeça, mas, como já nos havíamos acostumados com a sua loucura e já não tínhamos mais paciência para com ele, nem eu, nem mesmo Haword que sempre fora o apaziguador da nossa turma tentamos dissuadi-lo a deixar àquela aposta de lado.
O homem escolheu o local, Adan, sem demoras, se pôs confiável a contar os passos que foram estipulados pensativamente em mil quinhentos e quarenta e quatro, e o horário em que o trem passaria à nossa frente seria às onze horas e trinta e cinco minutos e nove segundos, então, Adan levantar-se ia de sua posição às onze horas trinta e cinco minutos e quatro segundos. Todos no bar se agitaram ao verem em que aposta extraordinária Adan se metera,foi uma comoção total, até mesmo o barman fazia parte da precisão que seguia-nos até os trilhos, faziam apostas uns com os outros, murmuravam, questionavam, mas ninguém dizia nada à ele que, caminha solene e simetricamente em direção ao seu triunfo!
A noite era fria e soturna, mais uma vez meu coração parecia pular pela boca, mas, um sentimento de ódio e desprezo pelo meu amigo me fazia desejar-lhe até o pior. Aquele sorriso aterradoramente sarcástico, sempre dono de si, aquele olhar penetrante e soberano, ah!! Causaram-me por anos uma tremenda irritação.
Já aos pés da linha férrea, lá estava Adan, seus passos até o primeiro trilho foram mais uma vez perfeitos, fora assim como ele planejou, nem um passo a menos ou a mais, indiscutivelmente assustador em sua precisão. Eram onze horas trinta e três minutos e quatorze segundos quando, Adan, deitou-se na linha férrea, seus pés estendidos cruzavam um trilho, enquanto no outro trilho fez questão de por o seu próprio pescoço, aquilo deixou a todos atônitos e apreensivos.
Alguns segundos depois, vimos o trem com sua luz radiante aparecer longinquamente, todos consultaram seus relógios com um entusiasmo e múrmuros em uníssono, Adan, como que tivesse um relógio interno, apenas contava os segundos em sua brilhante mente,
Á poucos metros de nós, como sem motivos, a locomotiva apagou seus faróis, deixando-nos num breu sem precedentes, o terror e desespero era total, então o homem da aposta disse:
- Saia daí rapaz, eu não quero ser o causador da morte de ninguém! Ande! Saia daí! - Disse tentando intimidar Adan. Porém, ele não se movia de sua posição, mesmo com a fraca luz lunar, podíamos ver o semblante confiante de Adan, aquilo para ele parecia lhe proporcionar um prazer profundo, surreal!
O trem estava à apenas alguns segundos dele. “O tempo certo”! – pensei aflito - Esse parecia que Adan não acertaria!
Ia ser algo terrível que presenciaríamos, todos estávamos tensos, desesperados, enquanto Adan, na sua tranquilidade inconveniente de sempre não se movia, pois, quando ele dizia algo, era aquilo ou nada! Não se levantaria dos trilhos até que o tempo por ele estipulado fosse presente. Ao chegar bem perto de nós, a locomotiva apitou bem alto, mas não diminuíra a velocidade, eu, esperando o pior, fechei os olhos fortemente, não queria ver a que desgraça, a que fim desolador esperaria pelo meu “amigo” Adan. Então, como um raio, ele passou por nós, ouvi alguns sussurros atrás de mim, o barulho do trem era ensurdecedor, abafava qualquer voz por perto, então, criando coragem, para ver no que havia dado aquele ato insano, esperando abrir os olhos e ver meu amigo odiado à minha frente com aquele olhar desdenhador e sorriso macabro, ao abrir os olhos não me decepcionei, pois, vi à minha frente mais uma vez aquela face persuasiva de Adan a me fitar, aquele sorriso tenebroso, aquele olha penetrante; Mantinham-se fixos em sua face, só não se mantinha mais fixa era sua cabeça ao seu corpo que, rolara aos meus pés!