
Sempre fui uma pessoa de muitos sonhos, lembro-me de quase todos, não me lembro porem, de ter passado mais que um dia sem ter um esvoaçado sonho se sequer, por muitas vezes podia jurar que sabia estar dentro de um, podia dizer com quase uma certeza cega que, eu realmente sabia onde estava.
Quando criança, aprendi algo, um recurso para me livrar dos maus sonhos – pesadelos – digo maus sonhos, pois, o que pra mim é sonho, ás vezes para outros é pesadelo, e vice e versa, aprendi que se eu piscasse os olhos bem forte, eu, como num passe de mágica, como num estalo de dedos, podia acordar de qualquer pesadelo que fosse, não me lembro como me surgiu essa idéia, porem, é vera que digo a verdade, nunca me falhou isso. O mais comum vemos em livros é que, com um beliscão ou coisa parecida, acordamos, no entanto, nunca tentei tal empreitada, não me perguntem de novo o por que.
Então, depois de dito isso, contar-lhes vou, o que me ocorrera dias atrás:
Deitei-me na cama, após um dia demasiado cansativo, sentimentos de culpa pairavam desordeiramente em minha mente, sentia uma agonia, um nó na garganta, daqueles que a gente não sabe de onde ou o porquê vem nos assolar no cair da noite, refleti durante um tempo, porem não cheguei a nenhuma conclusão cabível.
A noite estava calma, serena, apenas uma leve brisa adentrava em meu quarto, pela janela que sempre ficava aberta, a brisa balançando suavemente suas cortinas, o céu estava carregado, mas jazia entre as nuvens um clarão, clarão que provinha do brilho da lua, que estava escondida atrás de densas nuvens cinzentas. Todo esse espetáculo combinava com o cheiro de jasmim do incenso que impregnava meu quarto, havia acendido dois, o cheiro me é agradável..
Foi em meio á esse clima auspicioso que adormeci, acordei porem, após ouvir um ruído estranho, vindo da janela do meu quarto, costumava dormir com ela escancaradamente aberta, sem receio de nada. Estava ainda sonolento, mal podia ver seu contorno, via apenas o clarão no céu que vos mencionara. A brisa agora mais gélida não me era agradável, assim como, não foi nada agradável para meu espírito ver, sorrateiramente adentrando pela minha janela um espectro, um ser de inimaginável! Escorregava para dentro de meu quarto, parecia fumaça, parecia um grande lençol de cor roxa, ou uma sobra talvez, parecia-me tudo o que de inimaginável era capaz de me aparecer, junto com ele a brisa vinha ainda mais gelada ter em meu ser.
Minhas mãos tremiam, uma vontade inconcebível de gritar me possuía ao mesmo tempo em que uma força incomum me impedia do mesmo, me via imóvel na cama, enquanto o espectro precipita-se sobre mim que, apenas me via deixando lagrimas correrem meu rosto, eram lagrimas quentes e constantes.
A luz da lua já não me alcançava mais meu rosto, pois, a minha frente, face a face, via agora o rosto sem forma do ser, constituído por fumaça; uma fumaça negra, que tinha forma inconstante, ás vezes parecia rodopiar em torno de si mesma, ás vezes espalhar-se e juntar-se de forma tão repentina quanto, em torno dessa face instável, eu pude ver se formar um capuz, capuz esse de cor roxa, meio lilás, cores escuras, também formadas por uma espécie de fumaça.
Via que a qualquer momento meu coração iria parar de bater dentro do meu peito, que minha alma, assim como aquele ser, iria precipitar-se janela, porem para bem longe de mim. Não entendia o que aquilo queria de mim, não entendia o que minha visão levava ate meu cérebro que, á essa altura, já não me era confiável. Indaguei-me mentalmente – o que eu fiz? Vá embora! Desculpe-me! – lembro-me que mesmo internamente, minhas palavras e frases eram sem nexo, não dizia muita coisa plausível, coerente, eram frases de um menino assustado, não ás de um homem que encara a morte.
O ser parecia ouvir-me, pois a cada frase mentalmente dita por mim, sua face mudava bruscamente de aparência, de sentido, foi em uma dessas mudanças repentinas que, algo fez meu ser tremer por inteiro,; após sua face girar em torno de si mesma, como de súbito, ela ficou imóvel, não se via mais a agitação inconstante que relatara, se via agora dois orifícios, bem como dois olhos, pelos mesmos, não se via nada, alem da luz cegante que provinha da lua entre nuvens.
Senti meu ser me trair, achei que não agüentaria mais estar presente face a face com aquele ser, então, como ultimo espasmo, ultimo recurso, indaguei-o mentalmente – Por que vieres ate mim, fale! Diga-me demônio, queres meus pecados? Queres que eu me arrependa? É isso? - nesse instante, algo extraordinário ocorreu, de um simples ser em tamanho, via-o expandir-se, agora o ser espectral fazer-se presente por todo meu quarto, girava desordeiramente, assustadoramente por todo meu recinto, o terror me veio de tal maneira que, podia sentir o ser tirando –me a alma, levando-a para junto de si, senti-a ela sendo me tirada a força, sem perdão, sem clemência que pudesse me salvar, então, não sabendo o que fazer, disse gritando desesperadamente em minha mente- queres que me arrependa de meus pecados? É isso que queres?! – quando mais alto eu gritava internamente, mais densa a fumaça ia se tornando – então, sem saber o que me levara a tal ato, eu disse internamente para ele – não! Eu não me arrependo!
Nesse instante o tempo pareceu não existir, tudo congelou subitamente, e da mesma forma, toda a constituição do espectro se dissolveu a minha vista, nesse momento, lembrei-me dos sonhos, da forma que tinha de me livrar dos ruins, então, sem demoras, pisquei fortemente os olhos, e quando os abri novamente, pude sentir meu corpo outra vez, senti um alivio imenso, olhava minhas mãos, tocava meu rosto, pensava comigo mesmo – esse sonho quase me traiu- ainda sentindo uma onda de alívio, olhei em direção a janela, e o que vi, ainda me deixa agoniado, vi saindo evasivo pelo umbral da mesma, uma fumaça roxa meio lilás de um tom escuro e profundo.