sexta-feira, 6 de maio de 2011

A genialidade de Adan

Se alguns de vocês meus caros leitores, já conheceram em suas vidas alguém excêntrico, daqueles que quando olham em nossos olhos fazem com que desviamos o olhar, daquelas pessoas que nos intrigam, que desperta em nossas almas um sentimento de admiração e ao mesmo tempo de ódio, entenderam muito bem o que o personagem principal dessa história causava-me, falo de Adan, um rapaz de vinte e poucos anos, fisionomia resoluta, de uma presença de espírito desconcertante, de uma inteligência e sagacidade fora do comum, e uma incrível calma, uma fascinante presença de espírito, onde nada o fazia se comover.

Éramos sempre em quatro amigos, todos de personalidades diferentes; Tom meio estressado, se irritava freqüentemente, Haword, simpático e cordial, e eu, bem, vocês irão ver no decorrer dos fatos, porem, falarei de Adan; desde muito novo ele causava espanto na nossa roda de amigos, possuía uma tranqüilidade fora do comum, fazia coisas que para o resto de nós eram totalmente inconcebíveis. Certo dia, ao encontrarmos um cavalo morto numa linha férrea, todo despedaçado e já fedendo a carniça, Adan, com um gesto mais simples possível, e como se nada estivesse fazendo, o removeu dos trilhos parte por parte, enquanto alguns de nós vomitávamos e o reprimíamos por fazer aquilo de mãos desnudas, Adam, em sua face nada expressava, arrastava cada parte do animal para fora dos trilhos, as tripas cheias de vermes, o crânio do animal esmagado, tudo era removido dos trilhos com a maior normalidade possível. Ao final desse ato, ele com as mãos em sangue olhou para nós e disse tranquilamente - vamos andando amigos - íamos á um lago nos banhar.

Adan era uma pessoa que tinha uma precisão cronológica de outro mundo, sabia ao certo quantos minutos, segundos, quantos passos era preciso para chegar a qualquer lugar, desde novo sempre fazia apostas conosco em relação a esse dom, e sempre perdíamos, até, uma época que nós já não apostávamos mais, assim, sempre que alguém novo chegava, ele não perdia tempo, e fazia uma aposta, as pessoas riam e o caçoavam, o achavam louco, no entanto, no final da aposta, era Adam que lhes desferia um sorriso entre aberto e sarcástico após ganha-lá.

Numa dessas apostas, ainda na infância, estávamos na casa de Haword, que ficava perto da linha férrea, então, Adam, sem mais sem menos disse:

Em quinhentos e oitenta passos eu atravesso a linha férrea e fico à apenas um passo da madeira que sustenta o trilho do lado de lá.

Tom disse desdenhando:

- pois vendo que você já deve ter contado os passos, acho fácil essa aposta para ti!

Todos nós concordamos com esse fato exposto por Tom. Então tranquilamente disse Adam:

- Escolha o ponto meu caro amigo, qualquer local, e eu te direi quantos passos darei, passos esses, sempre uniformes e corretos.

A esse desafio todos nós nos olhamos, achávamos absurdo aquilo, porém, vínhamos uma chance da ganhar um dinheiro e ainda caçoar de Adan, que alias, nunca perdera uma aposta, e isso o fazia superior a nós, seria gratificante vê-lo perder.

Aposta feita, concordamos que se ele ficasse no meio do caminho, ou, se ficasse a mais de um passo do outro lado da linha férrea, perderia. Ele, prontamente consentiu com nossas exigências, e ainda para nos causar espanto terrível disse:

- E prometo-lhes parar onde meus passos me levarem, até mesmo no meio dos trilhos e La ficarei até que o trem passe!

Ao ouvir isso, Haword disse assustado:

- Nem pra tanto Adam, sem exageros!

Eu meio que no impulso disse:

- Concordo!

Tom disse confiante:

- Pois bem, o local será aquele perto do desvio dos trilhos, bem ao lado da alavanca, então, Adan, quantos passos?

Adam cerrou os dentes, olhou fixo para baixo, e então, depois de um silencio profundo disse:

- Setecentos e noventa e um passos! Vamos!

- Isso vai dar em merda – disse Haword sempre preocupado.

Sem demoras começamos a nos deslocar, com o primeiro passo já contado desde o local que Adan estava quando fez a aposta, Tom, sempre minucioso a olhar os passos de Adan, tentava achar uma mínima diferença entre eles, porém, Adam era preciso, seus passos eram cautelosos e sempre iguais. Quando Adan já havia dado setecentos e cinqüenta passos, o trilho já nos era visíveis entre o caminho no meio da floresta, caminhou mais um pouco - exatamente vinte passos - Adan parou, olhou-nos e disse ironicamente:

Ainda há tempo de manterem seus dinheiro nos bolsos!

Ninguém disse nada, Haword olhava para os pés de Adan e para os trilhos à nossa frente, como se contando onde aqueles vinte e um passos restantes levariam Adan, então disse desesperado:

- Eu desisto Adan, isso é loucura, você irá parar bem no meio dos trilhos, eu desisto! Vamos embora amigos!

- Espere! – disse Tom - eu não desisto- eu também não- disse eu.

- Pois bem, ganharei menos agora, mas, vamos lá- disse Adan.

A cada passo que Adan dava, o desespero ia tomando conta da pobre alma de Haword, Tom, esfregava uma mâo na outra, já imaginando-se ganhador da aposta, eu, dividia os dois sentimentos, seria prazeroso vê-lo perder, no entanto, não nego que a cada passo ficado para trás meu coração batia cada vez mais rápido, era angustiante.

Enfim, Adan parou em frente à linha férrea, faltavam-lhe cinco passos, ninguém disse nada, ouvimos o apito do trem e logo em seguida ele vinha cruzando ao longe, Adan esperou que ele se aproximasse mais, parecia sentir prazer em ver o desesperado Haword lhe implorando para parar por ali, e eu sabia que ele podia ver no meu olhar o medo que eu sentia, o terror que me assolava, então, a poucos segundos de o trem passar por nós ele continuou caminhando, seu ultimo passo, para espanto nosso, o deixou assim como ele planejara, a um passo do outro lado da linha férrea, então, ele se virou, e antes que pudéssemos ver seu rosto, o trem passou apitando brutalmente, entre os espaços de um vagão e outro víamos Adan a sorrir triunfante, mas não era um sorriso puramente normal, mas sim um sorriso seco e sarcástico, seus cabelos se esvoaçavam com o vento provocado pelo trem.

Assim, em meio à apostas cada vez mais absurdas e atos extraordinários por parte de Adan, os anos foram-se passando. Já na idade adulta, todos por volta dos vinte e poucos anos, nossa presença era freqüente em bares e seus derivados, Adan fazia fortuna apostando em jogos, dos mais variados, mas no que mais ele era fascinante, era no baralho, parecia contar as cartas, por vezes se viu tendo que se despir para provar não estar roubando. Num desses jogos, um homem que conhecera a historia de Adan e a aposta da linha do trem disse:

- Dizem por ai que você há muito tempo fez uma aposta, relacionada com um trem e alguns passos.

Adan se limitou a fita-lo, deixando a entender que era vera a sua façanha. O homem entendendo isso o desafiou:

- Pois aposto mil libras que não terá a mesma sorte de antes - disse o homem que acabará de perder um bom dinheiro no baralho para Adan.

Adam não só aceitou o desafio, como era de seu costume, o fez ficar ainda mais desafiante:

- Não só repito isso, como direi a você à hora exata em que o trem passará à nossa frente, e, deitar-me vou na linha do trem, e quatro segundos antes do horário por mim informado em que o trem passará à nossa frente, eu me levantarei triunfante e pegarei meu dinheiro direto de suas mãos – completou - não saio de lá antes disso!

Aquilo realmente era um ato de loucura, - pensei - a vaidade de Adan lhe subira à cabeça, mas, como já nos havíamos acostumados com a sua loucura e já não tínhamos mais paciência para com ele, nem eu, nem mesmo Haword que sempre fora o apaziguador da nossa turma tentamos dissuadi-lo a deixar àquela aposta de lado.

O homem escolheu o local, Adan, sem demoras, se pôs confiável a contar os passos que foram estipulados pensativamente em mil quinhentos e quarenta e quatro, e o horário em que o trem passaria à nossa frente seria às onze horas e trinta e cinco minutos e nove segundos, então, Adan levantar-se ia de sua posição às onze horas trinta e cinco minutos e quatro segundos. Todos no bar se agitaram ao verem em que aposta extraordinária Adan se metera,foi uma comoção total, até mesmo o barman fazia parte da precisão que seguia-nos até os trilhos, faziam apostas uns com os outros, murmuravam, questionavam, mas ninguém dizia nada à ele que, caminha solene e simetricamente em direção ao seu triunfo!

A noite era fria e soturna, mais uma vez meu coração parecia pular pela boca, mas, um sentimento de ódio e desprezo pelo meu amigo me fazia desejar-lhe até o pior. Aquele sorriso aterradoramente sarcástico, sempre dono de si, aquele olhar penetrante e soberano, ah!! Causaram-me por anos uma tremenda irritação.

Já aos pés da linha férrea, lá estava Adan, seus passos até o primeiro trilho foram mais uma vez perfeitos, fora assim como ele planejou, nem um passo a menos ou a mais, indiscutivelmente assustador em sua precisão. Eram onze horas trinta e três minutos e quatorze segundos quando, Adan, deitou-se na linha férrea, seus pés estendidos cruzavam um trilho, enquanto no outro trilho fez questão de por o seu próprio pescoço, aquilo deixou a todos atônitos e apreensivos.

Alguns segundos depois, vimos o trem com sua luz radiante aparecer longinquamente, todos consultaram seus relógios com um entusiasmo e múrmuros em uníssono, Adan, como que tivesse um relógio interno, apenas contava os segundos em sua brilhante mente,

Á poucos metros de nós, como sem motivos, a locomotiva apagou seus faróis, deixando-nos num breu sem precedentes, o terror e desespero era total, então o homem da aposta disse:

- Saia daí rapaz, eu não quero ser o causador da morte de ninguém! Ande! Saia daí! - Disse tentando intimidar Adan. Porém, ele não se movia de sua posição, mesmo com a fraca luz lunar, podíamos ver o semblante confiante de Adan, aquilo para ele parecia lhe proporcionar um prazer profundo, surreal!

O trem estava à apenas alguns segundos dele. “O tempo certo”! – pensei aflito - Esse parecia que Adan não acertaria!

Ia ser algo terrível que presenciaríamos, todos estávamos tensos, desesperados, enquanto Adan, na sua tranquilidade inconveniente de sempre não se movia, pois, quando ele dizia algo, era aquilo ou nada! Não se levantaria dos trilhos até que o tempo por ele estipulado fosse presente. Ao chegar bem perto de nós, a locomotiva apitou bem alto, mas não diminuíra a velocidade, eu, esperando o pior, fechei os olhos fortemente, não queria ver a que desgraça, a que fim desolador esperaria pelo meu “amigo” Adan. Então, como um raio, ele passou por nós, ouvi alguns sussurros atrás de mim, o barulho do trem era ensurdecedor, abafava qualquer voz por perto, então, criando coragem, para ver no que havia dado aquele ato insano, esperando abrir os olhos e ver meu amigo odiado à minha frente com aquele olhar desdenhador e sorriso macabro, ao abrir os olhos não me decepcionei, pois, vi à minha frente mais uma vez aquela face persuasiva de Adan a me fitar, aquele sorriso tenebroso, aquele olha penetrante; Mantinham-se fixos em sua face, só não se mantinha mais fixa era sua cabeça ao seu corpo que, rolara aos meus pés!

sábado, 20 de novembro de 2010

Uma segunda chance

Eram altas horas da noite, eu, deitado, semi imóvel na cama do hospital, respirava por aparelhos, via a chuva fina descer pelos grandes vidros da janela da sala em que eu estava, via também desolado ao meu lado, minha mãe e noiva, em prantos.

Ambas cansadas da vigília, deram-me um beijo, minha noiva disse ao meu ouvido algumas palavras que, infelizmente não pude distinguir, enfim, deixaram-me só, á meia luz que inundava meu antro, meus olhos lacrimejavam, não queria estar naquela situação, logo eu! Um rapaz tão vivido, tão radiante, me via a mercê de uma doença rara, que me atingira sem avisar, sem o mínimo de indulgência. Adormeci olhando para o aparelho- que nem sei o nome- o aparelho em que mostrava os batimentos do meu coração.

Porém, algo fascinante me ocorrera na manha seguinte, uma força, uma reação espetacular do meu corpo, eu estava novamente dono de meus movimentos, sentia o sangue fluir novamente por todo meu corpo, não podia acreditar em tal recuperação abrupta, nem mesmo o sol alaranjado e intenso que precipitava pelas fendas da persiana me incomodavam – só não entendia como era possível, pois uma chuva fina ainda se fazia presente, porém esse fato era irrelevante perante minha satisfação por eu ter recebido “uma segunda chance”-, minha alegria era tamanha que dava vontade de pular da cama e correr sem parar por horas.

Inclinei a cabeça e vi, do outro lado da vidraça que dava pro corredor, minha mãe e noiva, abraçadas, uma consolando a outra, estavam desoladas, queria logo lhes mostrar que eu estava bem, queria ver a cara delas quando me vissem no meu mais bem estado de espírito, gostaria de dizer tanto à elas, havia sido um filho muito ruim, uma vontade de pedir desculpas á minha mãe pairava em meu ser, queria dizer á minha noiva que sim! Que iríamos viajar por lugares que tanto sonhamos, Não podia mais aguentar a visão que vinha ate mim; minha noiva, com o queixo apoiado no ombro de minha mãe, olhava fixo, o nada, sua tristeza era profunda, sentei me na cama, era incrível!! Mexia as mãos, os pés, me sentia vivo outra vez, respirei fundo, senti meus pulmões se encherem de ar, era algo realmente fantástico! No entanto, ao olhar meus dedos notei que minha aliança já não estava lá, foi então que, ao virar minha cabeça para procurá-las na cama, minha alma despedaçou-se novamente, pois, tristemente vi amargurado que, atrás de mim meu corpo jazia pálido e sem vida.


segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O demônio da culpa

Sempre fui uma pessoa de muitos sonhos, lembro-me de quase todos, não me lembro porem, de ter passado mais que um dia sem ter um esvoaçado sonho se sequer, por muitas vezes podia jurar que sabia estar dentro de um, podia dizer com quase uma certeza cega que, eu realmente sabia onde estava.

Quando criança, aprendi algo, um recurso para me livrar dos maus sonhos – pesadelos – digo maus sonhos, pois, o que pra mim é sonho, ás vezes para outros é pesadelo, e vice e versa, aprendi que se eu piscasse os olhos bem forte, eu, como num passe de mágica, como num estalo de dedos, podia acordar de qualquer pesadelo que fosse, não me lembro como me surgiu essa idéia, porem, é vera que digo a verdade, nunca me falhou isso. O mais comum vemos em livros é que, com um beliscão ou coisa parecida, acordamos, no entanto, nunca tentei tal empreitada, não me perguntem de novo o por que.

Então, depois de dito isso, contar-lhes vou, o que me ocorrera dias atrás:

Deitei-me na cama, após um dia demasiado cansativo, sentimentos de culpa pairavam desordeiramente em minha mente, sentia uma agonia, um nó na garganta, daqueles que a gente não sabe de onde ou o porquê vem nos assolar no cair da noite, refleti durante um tempo, porem não cheguei a nenhuma conclusão cabível.

A noite estava calma, serena, apenas uma leve brisa adentrava em meu quarto, pela janela que sempre ficava aberta, a brisa balançando suavemente suas cortinas, o céu estava carregado, mas jazia entre as nuvens um clarão, clarão que provinha do brilho da lua, que estava escondida atrás de densas nuvens cinzentas. Todo esse espetáculo combinava com o cheiro de jasmim do incenso que impregnava meu quarto, havia acendido dois, o cheiro me é agradável..

Foi em meio á esse clima auspicioso que adormeci, acordei porem, após ouvir um ruído estranho, vindo da janela do meu quarto, costumava dormir com ela escancaradamente aberta, sem receio de nada. Estava ainda sonolento, mal podia ver seu contorno, via apenas o clarão no céu que vos mencionara. A brisa agora mais gélida não me era agradável, assim como, não foi nada agradável para meu espírito ver, sorrateiramente adentrando pela minha janela um espectro, um ser de inimaginável! Escorregava para dentro de meu quarto, parecia fumaça, parecia um grande lençol de cor roxa, ou uma sobra talvez, parecia-me tudo o que de inimaginável era capaz de me aparecer, junto com ele a brisa vinha ainda mais gelada ter em meu ser.

Minhas mãos tremiam, uma vontade inconcebível de gritar me possuía ao mesmo tempo em que uma força incomum me impedia do mesmo, me via imóvel na cama, enquanto o espectro precipita-se sobre mim que, apenas me via deixando lagrimas correrem meu rosto, eram lagrimas quentes e constantes.

A luz da lua já não me alcançava mais meu rosto, pois, a minha frente, face a face, via agora o rosto sem forma do ser, constituído por fumaça; uma fumaça negra, que tinha forma inconstante, ás vezes parecia rodopiar em torno de si mesma, ás vezes espalhar-se e juntar-se de forma tão repentina quanto, em torno dessa face instável, eu pude ver se formar um capuz, capuz esse de cor roxa, meio lilás, cores escuras, também formadas por uma espécie de fumaça.

Via que a qualquer momento meu coração iria parar de bater dentro do meu peito, que minha alma, assim como aquele ser, iria precipitar-se janela, porem para bem longe de mim. Não entendia o que aquilo queria de mim, não entendia o que minha visão levava ate meu cérebro que, á essa altura, já não me era confiável. Indaguei-me mentalmente – o que eu fiz? Vá embora! Desculpe-me! – lembro-me que mesmo internamente, minhas palavras e frases eram sem nexo, não dizia muita coisa plausível, coerente, eram frases de um menino assustado, não ás de um homem que encara a morte.

O ser parecia ouvir-me, pois a cada frase mentalmente dita por mim, sua face mudava bruscamente de aparência, de sentido, foi em uma dessas mudanças repentinas que, algo fez meu ser tremer por inteiro,; após sua face girar em torno de si mesma, como de súbito, ela ficou imóvel, não se via mais a agitação inconstante que relatara, se via agora dois orifícios, bem como dois olhos, pelos mesmos, não se via nada, alem da luz cegante que provinha da lua entre nuvens.

Senti meu ser me trair, achei que não agüentaria mais estar presente face a face com aquele ser, então, como ultimo espasmo, ultimo recurso, indaguei-o mentalmente – Por que vieres ate mim, fale! Diga-me demônio, queres meus pecados? Queres que eu me arrependa? É isso? - nesse instante, algo extraordinário ocorreu, de um simples ser em tamanho, via-o expandir-se, agora o ser espectral fazer-se presente por todo meu quarto, girava desordeiramente, assustadoramente por todo meu recinto, o terror me veio de tal maneira que, podia sentir o ser tirando –me a alma, levando-a para junto de si, senti-a ela sendo me tirada a força, sem perdão, sem clemência que pudesse me salvar, então, não sabendo o que fazer, disse gritando desesperadamente em minha mente- queres que me arrependa de meus pecados? É isso que queres?! – quando mais alto eu gritava internamente, mais densa a fumaça ia se tornando – então, sem saber o que me levara a tal ato, eu disse internamente para ele – não! Eu não me arrependo!

Nesse instante o tempo pareceu não existir, tudo congelou subitamente, e da mesma forma, toda a constituição do espectro se dissolveu a minha vista, nesse momento, lembrei-me dos sonhos, da forma que tinha de me livrar dos ruins, então, sem demoras, pisquei fortemente os olhos, e quando os abri novamente, pude sentir meu corpo outra vez, senti um alivio imenso, olhava minhas mãos, tocava meu rosto, pensava comigo mesmo – esse sonho quase me traiu- ainda sentindo uma onda de alívio, olhei em direção a janela, e o que vi, ainda me deixa agoniado, vi saindo evasivo pelo umbral da mesma, uma fumaça roxa meio lilás de um tom escuro e profundo.